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Quando uma crítica apaga mil elogios

Cobrança excessiva de que tudo saia perfeito revela exigências internas rigorosas e baixa tolerância a erros ou falhas.

Por: Joselene Alvim
05/10/2026 às 08:05
Crítica |
Crítica | Foto: Freepik

Você conclui um trabalho em que deu o melhor de si. O resultado ficou excelente, e não é só você que constata isso: recebe elogios de várias pessoas - algumas delas, inclusive, nem convivem com você, mas todas reconhecem a qualidade do que fez. Porém, uma única pessoa chega e faz uma crítica. Pronto! Aquele comentário foi suficiente para que todos os elogios recebidos desaparecessem. Sua mente só foca neste ponto. 

Então, você revisa mentalmente cada etapa do seu trabalho, nos mínimos detalhes; tenta compreender o que a pessoa quis dizer, checa com aqueles experientes no assunto e, mesmo diante das confirmações de que está bom, continua pensando naquela única crítica. Já passou por isso?

Por que uma única crítica consegue incomodar mais do que inúmeros elogios?

Claro que há trabalhos que necessitam de ajustes e, muitas vezes, aquela crítica faz você refletir sobre um aspecto que tinha passado despercebido, favorecendo o desenvolvimento ao ser ajustado. Entretanto, me refiro aqui àquela crítica que, mesmo sem corresponder aos fatos, faz você duvidar de si mesmo. O elogio acaba não sendo visto como parte do processo, assim como a crítica, mas tratado apenas como uma necessidade para nos sentirmos bem. 

Esta cobrança excessiva de que tudo saia perfeito revela exigências internas rigorosas e baixa tolerância a erros ou falhas. Há uma necessidade de validação e, mesmo quando isso acontece, nunca parece suficiente. Essa autocobrança elevada costuma ter raízes na infância, em lares onde qualquer conquista era minimizada com frases do tipo “Está bom, mas poderia ter feito melhor”, enquanto as críticas eram maximizadas. Isso dificulta o reconhecimento das próprias conquistas mais tarde.

Aqui entra a autoestima: a percepção que temos de nós mesmos, capaz de influenciar nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos. Assim, uma pessoa com baixa autoestima, mesmo diante de inúmeros elogios, vai focar apenas no que é negativo. 

Sim, pode haver falhas legítimas. O trabalho, uma opinião emitida ou até determinado comportamento em uma situação podem, de fato, ser passíveis de críticas e, portanto, de reformulações. Contudo, a diferença saudável está em não atrelar o erro à sua identidade.

O fato é que não estamos imunes às críticas. Sempre haverá alguém que não vai gostar de algo, assim como nós, em algum momento, não apreciamos o que o outro fez. Não há padrões absolutos de de sucesso. Por isso, o olhar alheio não pode ser a única forma de validação.

Em uma época de curtidas, comentários e seguidores, o mais importante é ser gentil com você mesmo: reconhecer limites - que são inerentes a qualquer ser humano – e valorizar cada conquista, por menor que pareça. 

 Joselene Alvim
Joselene Alvim
Jô Alvim é psicóloga clínica. Mestre em Educação (UNESP). Especialista em Neuropsicologia (USP). Apaixonada por comportamento, é professora de graduação e pós-graduação.